O dia em que minha melhor amiga escreveu um conto.

            Bom, Oi. Uma das minhas melhores amigas, escreveu um conto de natal. E o que eu fiz ? Chorar. Ele é lindo, e não é sempre que você vê muitas adolescentes de 14 anos, quase 15, escrevendo. Como meu professor de língua portuguesa disse, é um conto com narrativa sólida, de uma nova escritora.
Você vai ganhar o Mundo, Carol.
                         

             Um milagre de Natal.
— Acorda, acorda, acorda que já é hora, levanta-te dessa cama e vá-te embora. — Vovó cantava no corredor, o choro de Maria Rosa já se era ouvido, e eu sabia que deveria levantar e pegá-la, mas não era fácil, manhã de véspera de natal e tudo que eu queria era dormir até mais tarde, mas tinha que ninar e dar o leite para minha pequena irmãzinha até ela embalar no sono novamente.
Véspera de Natal, 07:00 da manhã, me levantei. Mamãe já havia saído para o trabalho havia uma hora e vovó não podia pegar Maria Rosa no colo, a dor nas costas a mataria durante o resto do dia se ela o fizesse.
Ser a irmã mais velha de uma família com seis filhos é a parte mais difícil.
Pulei da beliche, tentando não acordar meus irmãos. Nossa casa era muito pequena e velha, tinha apenas dois quartos. Em um deles dormiam meus avós, minha mãe e minha irmã de dois anos. No outro eu dormia em duas treliches com meus outros quatros irmãos. Lúcio, Joana, Roberta e Antônio.
Tive que ir para o quarto de meus avós. Dona Josefa, minha avó, cantava na cozinha enquanto passava o café, era sempre a mesma coisa. Meu avô ainda dormia, e Maria Rosa se esguelava de chorar na cama onde ela dormia com a minha mãe. Um milagre ela nunca ter caído.
— Fica quieta meu amor, eu to aqui. — Peguei a garotinha nos braços e ela ainda chorava, comecei a balançá-la enquanto andava para a sala, que era ao lado da cozinha. Casa pequena. Além dos dois pequenos quartos, um banheiro, cozinha e sala.
Sentei no sofá velho e gasto, e liguei nossa tv. A imagem era meio chuviscada, mas dava pra ver o filme de natal passando no SBT.
Queria que meu natal fosse como nesses filmes, mas estava longe de ser assim. Mamãe trabalhava como operadora de caixa em um mercadinho, sem folgar em finais de semana, e ganhava pouquíssimo, um pouco mais de um salário mínimo. Mal dava pra nada. A pensão que papai paga também não dá pra nada, ele também ganha pouco desde que resolveu largar nossa família em São Paulo e se mudar para  o Maranhão com outra mulher.
Nossa família sobrevivia mais da aposentadoria dos meus avós, que também não era muito. Mamãe pagava todas as contas, e sustentar seis filhos não é nada fácil.
Nosso natal seria ainda pior este ano, com a crise financeira. Não teria presentes embaixo de uma árvore de natal. Tal árvore que já tinha sido comprada há muito tempo, os enfeites velhos também, e não teria pisca-pisca, pois os antigos haviam queimado e não sobrava dinheiro para comprar novos.
Enquanto eu observava as crianças correndo pela neve no filme, ouvi os passos de vovó, ela vinha trazendo a mamadeira de Maria Rosa e uma xícara lascada de chá feito de erva-doce que ela plantava no quintal.
- Bom dia, Helena. — Ela colocou o chá na pequena estante onde a TV estava, e me entregou a mamadeira. Maria Rosa já tinha parado de chorar, e estava quieta quase comendo a chupeta de fome, pegou a mamadeira na hora.
— Bom dia. — A agradeci e ela sentou ao meu lado.
— Sua mãe vai trazer as coisas para Ceia quando chegar. Tadinha, estava tão cansada essa manhã. — Minha avó suspirou.
— Ela virou a noite novamente? — Perguntei.
— Dormiu bem tarde, sim. — Minha avó respondeu. Veja bem, minha mãe como uma mãe solteira que ainda mora com os pais, tenta ser o mais independente financeiramente, tenta nos dar o melhor, e isso inclui passar horas consertando roupas em uma máquina de costura velha que fica no canto da sala de estar. Chega cansada do trabalho às sete da noite, dá banho em todos os filhos, cuida da casa e passa um bom tempo costurando. Mal tem tempo de dormir antes de ter que acordar novamente às cinco para se arrumar para o trabalho novamente. Duas horas ela leva só para chegar até lá.
— Pelo menos ela vai folgar amanhã, não vai? — Perguntei e minha avó confirmou.
— Ainda bem, ela adora ir à missa de natal com a gente. — Minha avó disse, e então se levantou. — Vou lavar o resto da louça, coloque essa beleza de volta na cama e tome seu chá, minha filha.
— Tá bom. — Confirmei, levantando com Maria Rosa no colo, voltei para o quarto, meu avô ainda roncava deitado, não me surpreendi, depois de um derrame ele nunca mais foi o mesmo. Não tinha tido sequelas muito grandes, mas ainda era mais desanimado e triste do que costumava ser.
Voltei para a sala, peguei meu chá e me sentei para terminar o filme. No filme mostrava a magia e a beleza do Natal, falava sobre o Papai Noel e os milagres da noite natalina.
Aqui sempre foi muito diferente. O Natal sempre foi apenas um dia santo na minha família, algo bem católico, a celebração do nascimento de Jesus. E o Papai Noel também nunca foi acreditado nessa família, mamãe não tinha dinheiro para dar os presentes, às vezes as crianças perguntavam na escola para os meus irmãos porque o papai Noel não vem na nossa casa. Eles nunca souberam o que responder, porque mamãe dizia para deixar os outros mais sortudos acreditarem que há algo de mágico no Natal.
E o milagre de Natal. Eu sempre estava esperando que fosse acontecer. Mas não acontecia. Nunca aconteceu. E por mais gasta que minha esperança seja, ainda fico esperando algo milagroso acontecer nesse dia.
Dos meus 17 anos de vida, não me lembro de um natal que tenha sido totalmente pacífico.
Teve natais em que meu pai bebeu demais e estragou a noite, teve natais em que um dos meus irmãos ficou doente e tiveram que ir para o Pronto Socorro na noite da véspera, teve um natal que a minha avó caiu e se machucou, teve um natal que minha mãe queimou a ceia, teve um natal em que mamãe e papai brigaram, e por aí vai a lista de natais desastrosos. Eu só queria que pelo menos esse natal desse certo, que o espírito permanecesse de paz e amor.
Quando meus irmãos acordaram, correram pra se trocar e foi uma briga para usar o banheiro. Depois vovó serviu os pães dormidos. Metade pra cada um dos quatro. Eles estavam ansiosos.
Todo Natal uma boa alma da nossa igreja doava brinquedos para as crianças, e meus irmãos sempre me faziam ir até lá buscar alguns.
E lá fui eu, caminhando com Maria Rosa no colo e os quatro pestinhas ao meu lado, até o salão da igreja receber os presentinhos.
Lúcio e Antônio ganharam carrinhos, Joana e Roberta ganharam bonecas. Tive que rir de Joana brigando com a moça da igreja porque ela queria um carrinho também. No final, apesar de uma senhora espantada, Joana saiu feliz com seu carrinho azul.
Nós voltamos pra casa e eu coloquei meus irmãos para fazerem cartões de natal para mamãe. Isso os manteria ocupados enquanto eu cuidava de Maria Rosa e ajudava minha avó a limpar tudo para cearmos de noite. Meu avô acordou e foi sentar no sofá, assistindo às programações de Natal e cheirando seu rapé, um hábito que ele trazia de sua juventude, e que irritava muito vovó. Mas era uma das poucas coisas que ele ainda fazia, então ela já estava cansada de reclamar com o velho.
Passamos a tarde nisso, esperando minha mãe chegar. Ela saiu mais cedo, e conseguiu chegar em casa às seis. Trouxe com ela batatas, cenouras, um frango para assar, porque o Peru estava muito caro, e um panetone e ingredientes pra fazer um pudim.
Ela e vovó começaram a preparar tudo na cozinha, e eu fui ver os cartões que meus irmãos tinham feito. Estavam bonitinhos até, ela ia gostar.
Levei as crianças pra tomar banho, e todos quiseram vestir pijamas, não fiz objeção. Eles foram para sala ver os especiais de natal na TV e eu fui cuidar de mim.
Tomei um banho e coloquei uma das minhas roupas mais novas, eu só queria que aquela noite fosse boa.
Eu estava penteando o cabelo quando minha mãe entrou no quarto, ela sorria e trazia alguma coisa na mão. Seu semblante era cansado, mas feliz.
— Oi filha, como você está? — Ela tentou enrolar na conversa. Alguns fios grisalhos se espalhavam pelo cabelo castanho, ela ainda estava de uniforme e seu rosto ostentava marcas do cansaço, olheiras sob os olhos e linhas de preocupação e stress. Ela era a mulher mais batalhadora que já conheci.
— Eu estou bem mãe, você precisa descansar. — Falei pra ela, que dispensou com um aceno.
— Eu estou bem. Eu trouxe uma coisa para você, um presente de natal e aniversário adiantado. — Ela riu, me entregando uma caixa retangular. Meu aniversário era em Janeiro, nada mais justo que um presente duplo.
Comecei a abrir o presente e ela voltou a falar.
— Eu não trouxe nada para os seus irmãos, não deu, mas eu queria te recompensar de alguma forma. Você estuda tanto, faz curso técnico, cuida de boa parte da casa e dos seus irmãos, e eu não posso te oferecer metade do conforto que eu queria, então eu já estava planejando comprar isso.
Abri a caixa e encontrei um Notebook e um carregador dentro. Olhei espantada para ela.
— É de segunda mão, já foi usado, não é da melhor marca também, mas ainda está bom pra usar, consegui pagar bem mais barato do que se fosse comprar na loja. — Ela deu um sorriso sem graça e meus olhos se encheram de lágrimas.
— Não precisava mãe, eu sei que você tá apertada em questão de dinheiro. — Dei nela o meu melhor abraço e ela riu.
— Você é meu orgulho Helena, sei que ainda vai fazer grandes coisas na vida, e isso é só um dos instrumentos para te ajudar a estudar e ter oportunidades que eu não tive. — Ela disse e eu comecei a chorar sem perceber.
— Eu te amo, mãe.
— Também te amo, filha. Agora eu vou tomar banho, vá ajudar sua avó a pôr a mesa. — Ela mandou, beijando minha cabeça e indo para o banheiro.
Ficamos todos na sala, esperando a meia-noite. Quando os ponteiros do relógio se igualaram no número doze, sejamos uns aos outros "Feliz Natal". E fomos para a mesa começar a ceia.
Vovó puxou a oração da noite e eu olhei para todos ao redor da mesa na cozinha apertada, apesar de todas as dificuldades, todos estavam ali, firmes e fortes, unidos. Nessa noite nada iria estragar nossa felicidade, seria um dos nossos melhores natais.
E ali estava, o que eu achava que nunca iria acontecer. O meu milagre de Natal.

Comentários